O desejo de vingança é comum no Borderline porque a raiva e a sensação de injustiça chegam com muita força. Por trás dele costuma haver dor, humilhação e medo de abandono. Agir no impulso, porém, quase sempre se volta contra a própria pessoa. A raiva pode ser usada de outro jeito: como energia para construir a própria vida.
Você já quis que alguém que te traiu, te enganou ou te humilhou sentisse tudo o que você sentiu? Talvez até tenha pensado em se machucar para que essa pessoa se sentisse culpada. Se isso aconteceu, você não é uma pessoa ruim. É uma dor enorme procurando uma saída.
Se você está pensando em se machucar, por qualquer motivo, procure ajuda agora. Ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou para o SAMU no 192.
Por que a vingança fala tão alto
No Borderline, a raiva e a injustiça costumam ser sentidas com uma intensidade quase insuportável. A mente fica remoendo o que aconteceu e o que poderia ser feito. Junto com a raiva vêm a sensação de abandono, de humilhação e de não ter sido vista. Não é só ficar brava: é sentir-se rasgada por dentro.
No fundo, a vingança costuma ser um pedido desesperado: "que o outro sinta o que eu senti, para que alguém reconheça o meu valor".
Três crenças que alimentam a vingança
- "Se eu me machucar, ele vai entender a dor que me causou." Mesmo que a pessoa veja, isso não garante que ela se importe, e não diminui a sua dor. Muitas vezes, ainda reforça a história que ela conta sobre você.
- "Vai valer a pena, mesmo que eu saia machucada." O alívio dura pouco. Depois vêm vergonha, culpa, arrependimento e uma ressaca emocional que aprofunda o medo de abandono.
- "Ele precisa sentir o que eu senti." Mesmo que sinta, isso não devolve o que foi tirado. A dor do outro não apaga a sua, e mantém você presa a ele.
A vingança impulsiva entrega ao outro o controle da sua história.
A raiva não é o problema
Na Terapia Comportamental Dialética (DBT), nenhuma emoção é "errada". A raiva tem uma função: sinalizar que algo importante foi violado. Às vezes ela é justificada pelos fatos, e o caminho é resolver o problema ou colocar um limite. Às vezes ela é maior do que a situação, e o caminho é baixar a intensidade antes de agir. Nos dois casos, o que faz diferença é não agir no pico.
Uma pausa curta, a habilidade STOP ou baixar a ativação do corpo já mudam muito o que acontece em seguida. Veja o que fazer numa crise de Borderline.
Um outro tipo de "vingança": construir a sua vida
A raiva pode ser combustível. A pergunta é para onde você vai direcioná-la.
- Mude o alvo. Em vez de fazer o outro sofrer, mostre, com a sua vida e não com palavras, que aquilo que disseram sobre você não define quem você é.
- Seja a testemunha da sua própria mudança. Não é sobre provar nada para quem te feriu. Cada pequeno passo é uma prova para você mesma.
- Construa o que te disseram que você não teria. Relações estáveis, estudo, trabalho, autonomia, uma vida com sentido.
- Deixe de precisar da plateia. Se a pessoa vir, ótimo. Se não vir, tudo bem: o que você construiu continua seu.
Isso não quer dizer engolir o que aconteceu. Se houve abuso, violência ou injustiça, você tem direito a se proteger, colocar limites e buscar os seus direitos pelos caminhos adequados. A diferença é fazer isso a partir de uma escolha, e não do impulso.
Na DBT, esse é o centro do tratamento: construir uma vida que valha a pena ser vivida, de acordo com os seus valores. Para entender o pensamento de tudo ou nada que costuma acompanhar esses momentos, leia 8 ou 80: o pensamento tudo ou nada no Borderline.
Este texto é informativo e não substitui avaliação profissional. Se a raiva tem levado a situações de risco para você ou para outras pessoas, procure ajuda.
Perguntas frequentes
É normal sentir desejo de vingança tendo Borderline?
É comum. A raiva intensa é um dos critérios do Borderline, e a dor da rejeição ou da humilhação pode vir junto com o desejo de que o outro sofra. Sentir não é o problema; o cuidado está em como agir.
Por que eu penso em me machucar para o outro sentir culpa?
Porque, no auge da dor, parece a única forma de mostrar o tamanho do sofrimento. Mas o custo recai sobre você e não resolve a dor. Se esse pensamento aparecer, procure ajuda imediata: CVV 188 ou SAMU 192.
Como lidar com a raiva na hora?
Pausar antes de agir, se afastar da situação por alguns minutos e baixar a ativação do corpo, com respiração lenta ou água fria no rosto. Quem tem problemas no coração deve conversar com o médico antes de usar água fria. Depois, com a emoção mais baixa, decidir o que fazer.
Perdoar é obrigatório?
Não. Você pode não perdoar e, ainda assim, deixar de viver em função de quem te feriu. Seguir em frente é sobre a sua liberdade, não sobre absolver o outro.
Referências
- Linehan, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT: Manual do Terapeuta. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.

