Numa crise de Borderline, o primeiro passo é garantir a segurança. Se houver risco de você se machucar, ligue para o CVV (188) ou para o SAMU (192). Depois, o objetivo não é resolver tudo, e sim atravessar o pico sem piorar a situação. Habilidades da DBT, como STOP e TIPP, ajudam a baixar a intensidade em poucos minutos.
Se você está pensando em se machucar ou em morrer, procure ajuda agora. Ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito), para o SAMU no 192 ou vá ao pronto-socorro mais próximo.
O que acontece numa crise
Uma crise é um pico de emoção tão forte que parece impossível de aguentar. Muitas vezes começa com algo nas relações: uma briga, uma mensagem sem resposta, a sensação de ser rejeitada. A emoção sobe rápido e vem junto uma vontade urgente de agir: mandar várias mensagens, terminar a relação, sair de casa, beber ou se machucar.
Na hora, parece que a dor vai durar para sempre. Mas as emoções funcionam como ondas: sobem, chegam ao ponto mais alto e descem. As habilidades de crise servem para atravessar esse pico sem fazer algo que piore a situação depois.
Passo a passo para atravessar o pico
- Garanta a sua segurança. Se houver risco de se machucar, ligue para o CVV (188) ou para o SAMU (192), procure o pronto-socorro ou fique perto de alguém de confiança. Se puder, afaste de perto de você objetos ou remédios que possam ser usados para se machucar.
- Pare antes de reagir (STOP). Pare o que está fazendo, dê um passo para trás, observe o que está sentindo e só então siga, com atenção. Agora não é hora de responder, mandar mensagem ou tomar decisões.
- Baixe a intensidade pelo corpo (TIPP). Água fria no rosto, prendendo a respiração por alguns segundos, ajuda o coração a desacelerar. Exercício intenso, como correr ou subir escadas, de preferência por uns 20 minutos, respirar soltando o ar mais devagar do que puxou (por exemplo, puxar em 4 tempos e soltar em 6) e contrair e relaxar os músculos também ajudam.
- Ocupe a mente até a onda passar. Mude de atividade, saia do lugar onde está, conte objetos de uma cor, faça uma tarefa que exija atenção ou segure um cubo de gelo na mão. A ideia é dar tempo para a emoção baixar.
- Acalme os sentidos. Uma música tranquila, um banho morno, um cheiro de que você gosta, uma coberta ou um chá. Pequenas coisas que tragam conforto ao corpo.
- Peça ajuda. Fale com alguém de confiança, de preferência alguém com quem você já combinou o que fazer nesses momentos. Pedir ajuda não é fraqueza: é uma habilidade.
Atenção com a água fria: se você tem algum problema no coração, batimentos naturalmente baixos, usa remédios que diminuem os batimentos ou tem um transtorno alimentar, converse com o seu médico antes de usar essa técnica.
O que evitar no meio da crise
- Tomar decisões importantes, como terminar uma relação ou pedir demissão. Elas podem esperar algumas horas.
- Discutir por mensagem. O que é escrito no pico costuma trazer arrependimento depois.
- Álcool e outras substâncias. Parecem aliviar, mas aumentam a impulsividade e o risco.
- Ficar sozinha se houver risco. Nesses momentos, a companhia de alguém faz diferença.
A crise passa. Na hora, o objetivo não é resolver tudo. É não piorar a situação.
Depois da crise
Quando a emoção baixar, é comum vir vergonha e culpa. Tente não se punir: você atravessou um momento muito difícil. Descanse, coma alguma coisa e, se puder, anote o que aconteceu antes de a crise começar.
Na terapia, essas anotações ajudam muito. Na DBT, o terapeuta analisa com você a sequência que levou à crise, para encontrar os pontos em que dá para agir diferente da próxima vez. É assim que as crises ficam menos frequentes e menos intensas.
Se você convive com alguém em crise
- Mantenha a calma e fale devagar. A sua calma ajuda a outra pessoa a se acalmar.
- Valide o que ela sente, mesmo sem concordar com tudo: "Dá para ver que você está sofrendo muito agora."
- Deixe a discussão para depois. No pico, ninguém consegue resolver o conflito.
- Pergunte diretamente se ela pensa em se machucar. Perguntar não aumenta o risco e abre espaço para pedir ajuda. Se a resposta for sim, não a deixe sozinha e ligue para o 188 ou o 192.
- Cuide de você também. Você pode apoiar, mas não é responsável por regular as emoções de outra pessoa. O tratamento é o lugar desse trabalho.
Habilidades se aprendem antes da crise
No meio do pico, é difícil lembrar de qualquer coisa. Por isso, na DBT, as habilidades são treinadas nos momentos calmos, até ficarem automáticas. Com o terapeuta, também se monta um plano de crise: os sinais de alerta, as habilidades que funcionam para você, as pessoas e os contatos de ajuda. Para entender melhor como esse tratamento funciona, leia o que é Borderline e como a DBT trata.
Perguntas frequentes
Quanto tempo dura uma crise de Borderline?
O pico costuma durar de minutos a algumas horas. As emoções tendem a diminuir sozinhas com o tempo, principalmente quando não são alimentadas por novas discussões, mensagens ou decisões tomadas no impulso.
Água fria no rosto funciona mesmo?
Sim, para baixar a intensidade. A água fria no rosto, com a respiração presa por alguns segundos, faz o coração desacelerar, o que ajuda a sair do pico. Ela não resolve o problema: é o primeiro passo para conseguir usar outras habilidades. Quem tem problemas cardíacos deve falar com o médico antes.
Quando devo ir ao pronto-socorro?
Se houver risco de você se machucar ou tirar a própria vida, se você já se machucou ou se a crise parece fora de controle. Você também pode ligar para o SAMU no 192 ou para o CVV no 188.
O que é um plano de crise?
É um combinado feito com o terapeuta num momento calmo. Ele reúne os seus sinais de alerta, as habilidades que funcionam para você, as pessoas e os contatos que você pode chamar e o que fazer para deixar o ambiente mais seguro.
Precisa de ajuda agora? CVV: 188 (24 horas, gratuito, também por chat em cvv.org.br). SAMU: 192.
Referências
- Linehan, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT: Manual do Terapeuta. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Stanley, B.; Brown, G. K. Safety Planning Intervention: a brief intervention to mitigate suicide risk. Cognitive and Behavioral Practice, 19(2), 256–264, 2012.
- Centro de Valorização da Vida (CVV). cvv.org.br

