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Borderline e DBT

Medo de abandono no Borderline: de onde vem e como lidar

Por que sinais pequenos parecem o fim de uma relação, de onde esse medo vem e as habilidades da DBT que ajudam.

Por Luana Fontana PetriCRP 12/203957 min de leituraRevisado em 2026

Luana Fontana Petri sorrindo, de braços cruzados

O medo de abandono é um dos traços centrais do Borderline. A pessoa vive com a sensação de que os outros podem ir embora a qualquer momento e fica atenta a qualquer sinal de rejeição. Esse medo nasce da combinação entre uma sensibilidade emocional maior e experiências em que as necessidades emocionais não foram atendidas. E ele pode ser trabalhado.

Uma mensagem que demora, um tom de voz diferente, um plano desmarcado. Para quem tem Borderline, sinais pequenos podem soar como o começo do fim de uma relação. Entender de onde vem esse medo é o primeiro passo para que ele deixe de comandar as relações.

Como o medo de abandono aparece

Pense num shopping cheio de seguranças. A maioria faz o trabalho com tranquilidade, observando quem entra e quem sai. Agora imagine um segurança que vive em alerta máximo: passa o detector de metais em todo mundo, desconfia de um sorriso diferente, de um jeito de andar. Ele está hipervigilante.

No Borderline, o medo de abandono funciona assim. A pessoa procura, o tempo todo, sinais de que vai ser deixada, e muitas vezes encontra rejeição onde ela não existe. No dia a dia, isso pode aparecer como:

Uma pessoa com Borderline descreveu assim a sensação de ser rejeitada: é como ser uma criança que se perdeu dos pais num mercado lotado e não sabe para onde ir.

De onde vem esse medo

A Terapia Comportamental Dialética (DBT), criada pela psicóloga Marsha Linehan, explica o Borderline pela teoria biossocial. De um lado, existe uma sensibilidade emocional maior, de base biológica: as emoções chegam mais rápido, com mais força e demoram para passar. Do outro, um ambiente que não conseguiu acolher e ensinar a lidar com essas emoções.

Muitas pessoas com Borderline contam que, na infância, não se sentiam vistas. Algumas tinham tudo o que era material, mas pouco acolhimento emocional. Outras viviam um afeto que parecia depender de agradar: atenção quando acertavam, distância quando decepcionavam. Com o tempo, isso pode virar uma certeza interna: "vou ser deixada de novo", "não sou digna de amor", "tem algo de errado comigo".

Isso não significa culpar a família. Muitas vezes os cuidadores também não tinham ferramentas para lidar com emoções tão intensas. É uma combinação que aconteceu, e que pode ser trabalhada.

Por que ele pesa tanto nas relações

Quando a pessoa acredita que não merece amor, o parceiro pode virar o centro da vida dela. Ela passa a viver pelo outro e a aceitar quase tudo para não ser rejeitada. Se sente que o outro está se afastando, o chão desaparece: junto com a relação, parece que vai embora a própria identidade. É nesse momento que vêm o desespero, as crises de raiva e, às vezes, o risco de se machucar.

Se você está pensando em se machucar ou em morrer, procure ajuda agora. Ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou para o SAMU no 192.

Como lidar com o medo de abandono

O medo não some de uma hora para outra, mas ele pode deixar de mandar nas suas reações. Na DBT, algumas habilidades ajudam muito:

  1. Nomear o que está sentindo. Dizer para si "estou com medo de ser deixada" já ajuda a diminuir a intensidade da emoção.
  2. Verificar os fatos. Antes de agir, pergunte-se: o que aconteceu de fato? A mensagem demorou ou a pessoa disse que vai embora? Que outras explicações são possíveis?
  3. Agir diferente do impulso, quando o medo não combina com os fatos. Se a vontade é mandar dez mensagens ou terminar antes de ser deixada, e os fatos não sustentam esse medo, fazer o oposto, com calma, ajuda a emoção a baixar.
  4. Pedir o que precisa, com clareza. Em vez de testar o outro, dá para dizer: "Quando você some sem avisar, eu fico muito ansiosa. Você pode me mandar uma mensagem quando atrasar?"
  5. Construir uma vida que não dependa de uma só pessoa. Amizades, interesses e rotina próprios deixam a relação mais leve e a identidade mais firme.

Essas habilidades se aprendem melhor com acompanhamento, praticando entre as sessões. Para quem está em crise, veja também o que fazer numa crise de Borderline.

Este texto é informativo e não serve para autodiagnóstico. Se você se identificou, conversar com um profissional de saúde mental é o melhor próximo passo.

Perguntas frequentes

Todo mundo com Borderline tem medo de abandono?

É um dos traços mais comuns e centrais, mas cada pessoa é única. O diagnóstico considera um conjunto de sinais e não um sintoma isolado, e só pode ser feito por um profissional.

O medo de abandono tem tratamento?

Sim. Na DBT, a pessoa aprende a reconhecer o medo, verificar os fatos antes de reagir e pedir o que precisa nas relações. Com o tempo, o medo continua podendo aparecer, mas deixa de comandar as decisões.

Por que eu continuo numa relação que me faz mal?

Muitas vezes, o medo de ficar sozinha e a crença de não merecer algo melhor fazem a pessoa aguentar situações difíceis. Entender isso na terapia ajuda a fazer escolhas com mais segurança e menos medo.

Como o parceiro pode ajudar?

Sendo previsível, avisando quando vai se atrasar e validando o que a pessoa sente, sem precisar concordar com tudo. Mas o parceiro não é responsável por regular as emoções do outro: o trabalho principal acontece no tratamento. Veja como conviver com alguém com Borderline.

Referências

Em vídeo

Medo do abandono em pessoas com Borderline

8:00

A Luana Fontana Petri explica, em vídeo, de onde vem o medo do abandono e como ele afeta as relações. Assistir no YouTube

Escrito por Luana Fontana Petri, psicóloga especialista em DBT, fundadora e supervisora clínica da Clínica Fontana. CRP 12/20395.

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