Muito do que se fala sobre Borderline é mito. Pessoas com o transtorno não são manipuladoras nem egoístas por natureza, podem ter relações saudáveis, não estão condenadas a viver assim para sempre e nem todas expressam a raiva explodindo. Por trás de muitos comportamentos há sofrimento intenso e falta de habilidades, que podem ser aprendidas.
A falta de informação faz estrago: aumenta o estigma, afasta as pessoas do tratamento e machuca quem já sofre muito. Vamos olhar para cinco ideias equivocadas que aparecem com frequência, e para o que a ciência e a prática clínica mostram.
Mito 1: "Quem tem Borderline é manipulador"
Talvez o mais repetido de todos. O que costuma acontecer é que a pessoa está usando os recursos que tem para lidar com um sofrimento enorme e para ter necessidades importantes atendidas. Sem habilidades para pedir de outro jeito, esses comportamentos podem parecer manipulação vistos de fora. Mas não há, em geral, uma intenção maliciosa por trás.
Mito 2: "Pessoas com Borderline não conseguem ter relacionamentos saudáveis"
Não é uma regra. Muitas pessoas com Borderline têm relações estáveis e duradouras, especialmente quando estão em tratamento. O que ajuda é o compromisso da própria pessoa com a mudança e uma relação com respeito e limites dos dois lados. Apoio do parceiro faz diferença, mas ele não é responsável por regular as emoções do outro. Veja como construir um relacionamento estável tendo Borderline.
Mito 3: "Nasceu assim, vai morrer assim"
Esse mito erra duas vezes. Primeiro, ter uma predisposição biológica não significa que o transtorno vá, necessariamente, se desenvolver: pela teoria biossocial, ele surge da combinação entre sensibilidade emocional e ambiente. Segundo, mesmo que a sensibilidade faça parte de quem a pessoa é, as habilidades para lidar com ela podem ser aprendidas.
Os estudos mostram que a maioria das pessoas com Borderline melhora muito com o tempo e com tratamento, e muitas deixam de preencher os critérios do diagnóstico. Leia Borderline tem cura? O que os estudos mostram.
Mito 4: "Todo Borderline é explosivo"
A raiva intensa é um dos critérios possíveis do diagnóstico, mas não o único, e ninguém precisa ter todos. Há muitas combinações diferentes de sintomas. Algumas pessoas expressam a raiva para fora, gritando ou brigando. Outras a voltam para dentro, se criticando e se punindo em silêncio. Saiba mais sobre o Borderline quieto.
Mito 5: "Quem tem Borderline é egoísta"
Comportamentos que parecem egoístas, como exigir atenção ou reagir de forma extrema, costumam ser um reflexo do medo intenso de ser rejeitada ou abandonada. A pessoa está tentando se proteger de um sofrimento que não aparece de vez em quando, mas quase todos os dias. Entender a intenção não significa aceitar tudo, e limites continuam sendo importantes, mas muda a forma de olhar.
Cada pessoa com Borderline é única. Comparar e generalizar só aumenta o estigma.
Por que desfazer esses mitos importa
Quando a pessoa ouve que é manipuladora, egoísta ou sem chance de melhorar, ela tende a acreditar nisso, e a desistir de buscar ajuda. Informação de qualidade abre espaço para o tratamento. A Terapia Comportamental Dialética (DBT), abordagem com mais evidência para o Borderline, ensina habilidades de regulação emocional, de comunicação e de enfrentamento das crises. Para começar, leia o que é Borderline e como a DBT trata.
Se você está pensando em se machucar ou em morrer, procure ajuda agora. Ligue para o CVV no 188 (24 horas, gratuito) ou para o SAMU no 192.
Este texto é informativo e não serve para autodiagnóstico. Só um profissional pode fazer o diagnóstico.
Perguntas frequentes
Quem tem Borderline é manipulador?
Não. Alguns comportamentos podem parecer manipulação de fora, mas costumam ser tentativas desesperadas de lidar com a dor e com o medo de abandono, sem as habilidades necessárias para pedir ajuda de outro jeito.
Borderline é para sempre?
Não necessariamente. Estudos de longo prazo mostram que a maioria das pessoas melhora de forma importante, e muitas deixam de preencher os critérios do diagnóstico, especialmente com tratamento.
Toda pessoa com Borderline tem crises de raiva?
Não. A raiva intensa é um dos critérios possíveis, mas há pessoas que expressam pouco a raiva para fora e a voltam contra si mesmas.
Como posso ajudar a combater o estigma?
Evitando usar "borderline" como xingamento, buscando informação de fontes confiáveis e lembrando que, por trás do diagnóstico, existe uma pessoa que sofre e que pode melhorar.
Referências
- American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
- Linehan, M. M. Treinamento de Habilidades em DBT: Manual do Terapeuta. 2ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2018.
- Zanarini M. C. e colegas. Attainment and stability of sustained symptomatic remission and recovery among patients with borderline personality disorder and axis II comparison subjects: a 16-year prospective follow-up study. American Journal of Psychiatry, 169(5), 476–483, 2012. Ver o estudo

