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Borderline e DBT

Borderline e drogas: o que acontece no cérebro

Por que é tão difícil parar, o que acontece no sistema de recompensa e o que ajuda a sair do ciclo, sem julgamento.

Por Luana Fontana PetriCRP 12/203958 min de leituraRevisado em 2026

Luana Fontana Petri sorrindo, de blusa azul-marinho, ao lado da estante

Álcool e outras drogas mexem no sistema de recompensa do cérebro e, com o tempo, enfraquecem o "freio" dos impulsos. No Borderline, o uso costuma começar como uma tentativa de aliviar emoções insuportáveis e o vazio. O alívio dura minutos e o custo cresce. O cérebro, porém, pode se reorganizar, e há tratamento.

Você não queria usar, mas usou. Sabe que faz mal, mas também sabe que, por alguns minutos, funciona: o peito relaxa, a cabeça desacelera. Logo depois vêm a culpa, o arrependimento e a pergunta: "por que eu nunca consigo parar?". A resposta não é falta de força de vontade. Tem a ver com como o cérebro funciona.

O sistema de recompensa

O cérebro tem um sistema que avalia se algo vale a pena ser repetido. Comer, ouvir uma música de que você gosta, rir com amigos, se apaixonar: tudo isso libera dopamina, um neurotransmissor ligado à motivação e à recompensa, em níveis naturais.

As drogas provocam uma liberação muito acima desses níveis. Algumas, como a cocaína, também impedem que a dopamina seja recolhida, prolongando o efeito. O cérebro registra: "isso foi melhor do que qualquer outra coisa, preciso de novo".

Tolerância: precisar de mais para sentir o mesmo

Diante dessa enxurrada, o cérebro se protege reduzindo os receptores de dopamina. É como tapar os ouvidos depois de um grito muito alto. Resultado: é preciso uma dose maior para sentir o mesmo efeito. Isso se chama tolerância.

Ao mesmo tempo, as pesquisas da neurocientista Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas dos Estados Unidos, mostram que o uso crônico prejudica o funcionamento do córtex pré-frontal, a área ligada ao controle dos impulsos e às decisões. O impulso fica mais forte e o freio, mais fraco. Por isso tanta gente quer parar e, ainda assim, volta a usar.

Quando a vida perde a cor

Acostumado a picos artificiais, o cérebro passa a achar sem graça o que antes dava prazer: a música, o abraço, os amigos. Esse estado se chama anedonia. Ele não é o fim: com tempo sem a substância e com novas fontes de satisfação, o sistema de recompensa pode voltar a responder aos prazeres do dia a dia.

Não é fraqueza nem falta de caráter. É um cérebro tentando sobreviver, e que pode aprender outros caminhos.

Por que o risco é maior no Borderline

Quem tem Borderline já convive com emoções muito intensas, impulsividade e, muitas vezes, uma sensação crônica de vazio. O uso de substâncias pode surgir justamente como tentativa de apagar esse incêndio. Por alguns minutos, alivia. Depois, intensifica tudo: a instabilidade, a culpa, os conflitos nas relações e o medo de abandono. E o ciclo recomeça.

O uso de substâncias é uma das condições que mais aparecem junto com o Borderline, e precisa ser tratado em conjunto. Para entender o vazio que muitas vezes está por trás, leia vazio crônico no Borderline.

Se você está pensando em se machucar ou em morrer, ou se usou uma quantidade que pode colocar sua vida em risco, procure ajuda agora. Ligue para o SAMU no 192 ou para o CVV no 188 (24 horas, gratuito).

O cérebro pode mudar

A capacidade do cérebro de criar novas conexões se chama neuroplasticidade. O neurocientista Eric Kandel ganhou o Nobel de Medicina em 2000 por mostrar como a experiência e o aprendizado modificam as conexões entre os neurônios.

O ambiente também pesa. Num estudo publicado em 2002 na Nature Neuroscience, macacos que se tornaram dominantes em seus grupos sociais passaram a ter mais receptores de dopamina, e a cocaína funcionou menos como recompensa para eles do que para os macacos subordinados. A lição, com todo o cuidado de comparar animais com pessoas, é que uma vida com vínculos e fontes de satisfação ajuda a proteger.

O que ajuda a sair do ciclo

  1. Um ambiente que permita respirar sem a substância, com menos acesso e menos gatilhos de uso.
  2. Pessoas que não julguem, que validem a sua dor e saibam ser firmes quando preciso.
  3. Novas fontes de satisfação, encontradas aos poucos: cada pessoa tem as suas.
  4. Tratamento. Psicoterapia e acompanhamento médico. Existe uma adaptação da DBT para quem tem Borderline e uso de substâncias. Parar de uma vez algumas substâncias, como álcool e calmantes, pode ser perigoso: faça isso com orientação médica. No SUS, os CAPS AD atendem gratuitamente.
  5. Constância, inclusive depois de escorregar. Um deslize não apaga o caminho feito. Quanto mais rápido você retoma, mais longe chega.

Este texto é informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica.

Perguntas frequentes

Por que é tão difícil parar de usar?

Porque o uso repetido muda o sistema de recompensa e enfraquece as áreas do cérebro ligadas ao controle dos impulsos. Não é falta de força de vontade: é uma condição de saúde, que tem tratamento.

Quem tem Borderline tem mais risco de dependência?

Sim. A impulsividade, as emoções intensas e o vazio aumentam o risco, e o uso de substâncias é uma das condições que mais aparecem junto com o Borderline. Por isso as duas coisas precisam ser tratadas juntas.

O cérebro se recupera depois que a pessoa para?

Em grande parte, sim. Com tempo sem a substância e novas fontes de satisfação, o sistema de recompensa tende a voltar a responder aos prazeres naturais. Isso leva tempo e costuma exigir apoio.

Recaída significa que o tratamento falhou?

Não. Deslizes são comuns no caminho. O importante é retomar logo, entender o que aconteceu e ajustar o plano com a equipe que acompanha você.

Referências

Em vídeo

Drogas e Borderline: o que acontece no seu cérebro

14:33

A Luana Fontana Petri explica, em vídeo, o que as drogas fazem no cérebro e por que o risco é maior no Borderline. Assistir no YouTube

Escrito por Luana Fontana Petri, psicóloga especialista em DBT, fundadora e supervisora clínica da Clínica Fontana. CRP 12/20395.

Continue lendoFamília e Borderline: como um afeta o outro e o que ajudaLer o artigo ← Todos os textos do blog

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